Sunday, March 02, 2008

Potes e Jarras

Era uma vez um belo pote de barro modelado segundo um design exclusivo pelas mãos de um habilidoso ceramista. Em função de seu tamanho, contornos e acabamento especiais, este pote era útil para abrigar uma planta florida ou o cultivo de cebolinha e salsinha, servir como recipiente para guardar pequenos objetos avulsos de jardinagem e pacotinhos de sementes, ou ainda para segurar uma coleção de canetas de pé na estante. Chegou até a ser usado, juntamente com outras peças de cerâmica, na composição de uma foto para um livro de arte.

Certa vez, uma tempestade violenta passou pela cidade, e o vaso, que na época continha Lathyrus odoratus e estava em uma mureta do jardim que acompanhava a calçada, foi duramente castigada. O vento fez com que caísse por cima de umas grandes pedras ornamentais e o pote se partiu em muitos pedaços. Na manhã seguinte à procela, quando fez a limpeza do jardim, o jardineiro coletou os destroços da plantinha para replantá-la, mas os cacos do pote tiveram de ir para o lixo...

Mais tarde, passeando pelo jardim, o oleiro viu os pedacinhos do pote no lixo e os retirou, um por um. Embora já tivesse formado milhares de artefatos, cada criação era única e a inspiração para sua confecção não era esquecida pelo artesão. Manipulou carinhosamente os pedaços na sua mão imaginando como seria o todo já recomposto. Levou os cacos para seu ateliê, e mesmo sendo tarde naquele dia, se pôs a criar novamente. Uma por uma, as peças iam sendo encaixadas e coladas umas às outras com uma pasta gelatinosa e brilhante que deixava uma fina camada entre uma borda e outra, quase imperceptível ao olho amador. Várias porções da pasta tiveram de ser preparadas, pois era tudo feito na hora, em pequenas porções, segundo uma fórmula exclusiva que nenhum outro ceramista conhecia.

Na manhã seguinte, o artesão colocou a peça na mesa, inclinou-se um pouco para trás para avaliar melhor o seu trabalho, e deu um suspiro feliz de satisfação. Agora o pote mais parecia uma jarra, e conforme chegavam os primeiros sinais do novo dia, dava para perceber que a soma final dos cacos produzira um objeto um pouco maior, com outros contornos... Ainda lembravam o pote original, mas agora seria mais útil, pois além de acolher terra, plantinhas, flores e canetas, também serviria para dispensar líquidos, fluidos... como água ou azeite, por exemplo. Os raios nascentes incidiam sobre as emendas, e depois de alguns momentos de observação, era possível notar que um lindo desenho se formara entre os cacos e suas “cicatrizes”... parecia até uma renda caríssima! À medida que a luminosidade aumentava no ateliê, as emendas brilhavam cada vez mais. O ceramista resolveu preparar uma variação de sua fórmula secreta que ficasse líquida, mais fluida, para que aquela substância brilhante pudesse ser distribuída mais amplamente. Soprou para dentro da jarra, e ela se encheu, encheu, até transbordar... fulgente, multicolorida, parecendo um cristal líquido que refletia o largo sorriso do Grande Criador.

Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós”. 2 Coríntios 4:6-7

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